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há 25 anos

Uma nova civilização Religião e espiritualidade no mundo moderno

01/02/2002

Uma nova civilização Religião e espiritualidade no mundo moderno
Atualmente observa-se na sociedade em geral o resgate de valores espirituais outrora adormecidos. É crescente o número de pessoas que buscam na religião e na espiritualidade respostas às questões para as quais não encontraram solução no modo de vida materialista que se instalou na civilização moderna. Essa busca tem gerado uma série de fenônemos que podemos observar com freqüência, como por exemplo: a retomada da prática religiosa por parte de pessoas anteriormente indiferentes; a procura mais intensa pelo misticismo e pelo esoterismo; o surgimento de novas seitas e correntes religiosas; a criação de “religiões individuais” utilizando ensinamentos de diversas crenças para constituir uma filosofia própria; e a presença cada vez maior da religiosidade nos meios de comunicação.

Não somente a religiosidade mas também a espiritualidade de uma maneira geral vêm ganhando mais espaço no cotidiano das pessoas, haja visto a gama de práticas orientais adotadas pela sociedade ocidental.

Acontecimentos como os decorrentes dos atentados em Nova York em setembro do ano passado, a crise econômica e a desordem social vêm a se somar à conjuntura do mundo atual, obrigando as pessoas, em muitos casos, a fazerem da espiritualidade tanto um refúgio como uma válvula de escape para seus problemas.

Entretanto, esse sentimento não é, em essência, algo novo, mas sim o ressurgimento de uma necessidade que acompanha o ser humano desde seus primórdios e que, de tempos em tempos, ganha força de acordo com as circunstâncias da época. Quanto mais o ser humano se sente ameaçado e desprotegido, mais vai buscar forças nos valores espirituais. Isso é observado tanto em termos individuais como sociais.

As origens do sentimento religioso

Não é exagero afirmar que, basicamente, o sentimento religioso nasce do respeito pelo desconhecido. O que podemos compreender e dominar é destinado ao campo do raciocínio lógico e das ciências. Entretanto, as questões que fogem à nossa compreensão, conhecimento ou domínio acabam sendo tratadas por meio da espiritualidade. Esse comportamento tem raízes na necessidade primitiva do ser humano em controlar sentimentos negativos como impotência, ansiedade e dependência causados pelo medo do sofrimento e da morte, seja de si ou de outras pessoas. Pode-se dizer que o surgimento do sentimento religioso está ligado ao próprio instinto de sobrevivência do ser humano.

Provavelmente o lado misterioso da morte e o poder atribuído aos fenômenos naturais tenham motivado os primeiros sentimentos religiosos. Com o aperfeiçoamento das práticas religiosas e a complexidade dos grupos humanos, a reverência às autoridades — como monarcas e sacerdotes — e o sentido de ordem social foram acrescidos aos elementos que motivavam os indivíduos a seguirem uma religião.

O surgimento das grandes civilizações fez com que a institucionalização da religião passasse a ser fundamental para a manutenção das estruturas sociais, políticas e econômicas. A religião e a cultura passaram a caminhar juntas e isso foi decisivo para estabelecer padrões éticos e morais, dando origem às leis e sedimentando as bases da civilização até os dias atuais. Por outro lado, desde épocas remotas até os dias de hoje, não faltam exemplos de como a religião foi utilizada para os mais terríveis fins, quase sempre ligados ao exercício da dominação cultural, econômica ou política.

A ruptura

No caso da civilização ocidental, a influência religiosa sobre a vida das pessoas atingiu seu auge durante a Idade Média. A partir do Renascimento, um novo sistema de valores passou a ser adotado, lançando luz sobre a potencialidade do ser humano e amenizando o poder da Igreja sobre o destino dos homens.

O desenvolvimento tecnológico e científico projetou a humanidade em uma nova era em que os valores religiosos foram gradativamente perdendo sua força na sociedade. A Revolução Industrial, a ascensão do capitalismo e o surgimento do socialismo são acontecimentos que iconizam o desapego crescente do ser humano à religião.

Sobre esse aspecto, o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, comentou em seu discurso intitulado “O Budismo Mahayana e a civilização do século XXI”, proferido na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em setembro de 1993:

“Se descrevermos com traços mais claros o movimento da era medieval à era moderna na Europa, observaremos um avanço constante além do determinismo centralizado em Deus, rumo a uma ênfase ainda maior na livre vontade e na responsabilidade humana. O potencial do ser humano tem sido cada vez mais realçado, ao passo que os poderes externos a nós têm sido cada vez menos enfatizados. E embora ninguém negue as grandes realizações da ciência e da tecnologia da era moderna, a fé errônea na onipotência da razão levou a humanidade a acreditar que não há nada além de nosso poder, conduzindo dessa forma a civilização ao seu atual e aparentemente insolúvel impasse. Se a antiga crença numa força externa levou a humanidade a subestimar a total dimensão de nossas possibilidades e responsabilidades, a fé excessiva em nossos próprios poderes gerou uma exaltação exagerada e perigosa do ego humano.” (Brasil Seikyo [BS], edição no 1.245, 9 de outubro de 1993, pág. 4.)

Nesse contexto, entretanto, cabe ressaltar que uma das maiores causas desse “desligamento espiritual” foi a incapacidade das próprias religiões de evoluírem e atenderem às necessidades do ser humano moderno. Podemos concluir que o ser humano não deixou de necessitar da religiosidade, mas perdeu a confiança na maneira como ela vinha sendo exercida.

Contudo, devido a tantos conflitos e problemas, a humanidade anseia mais do que nunca pela paz e pela harmonia, e volta a buscar na espiritualidade as respostas que não encontrou no modo de vida que adotou. Além disso, esse modo de vida, principalmente em relação aos grandes centros urbanos, tem se mostrado cada vez mais prejudicial tanto física como mentalmente, ocasionando o que podemos chamar de males do mundo moderno, como o estresse, a depressão, a hipertensão e os vários tipos de dependência.

Uma espiritualidade renovada

Mas como não cair no dogmatismo, nos desvios e demais erros de épocas anteriores em que as pessoas devotavam sua crença na religião? Ainda hoje deparamos com excessos causados pelo fanatismo e pela intolerância religiosa ou com ações mal-intencionadas dos que se aproveitam da fé alheia em benefício próprio.

Quando discursou durante a cerimônia de posse como membro correspondente da Academia Brasileira de Letras, em fevereiro de 1993, o presidente Ikeda ressaltou:

“Reconheçamos que, neste fim de século, as religiões já não têm a mesma força de outrora. Encontram-se enfraquecidas pela torrente da secularização. Estão perdendo a espiritualidade escondida no íntimo envergonhado das pessoas. Atravessam altos e baixos efêmeros com seus ensinamentos duvidosos. Muitas práticas confundem-se com o ocultismo, ou funcionam como o gêiser cuja energia explode inesperadamente gerando conflitos sangrentos. A imagem que atualmente se tem da religião é, na maioria das vezes, negativa.(...)

“O dogma, em vez de curar, tende a aumentar a loucura e o fanatismo num processo progressivo. Ao contrário, a religião deve, na prática, forjar a espiritualidade humana elevando-a para o bem, e ser o ponto de partida para estabelecer a harmonia mundial.” (BS, edição no 1.211, 13 de fevereiro de 1993, pág. 5.)

Não há dúvidas de que a espiritualidade é imprescindível para podermos vencer os desafios que se levantam frente a civilização atual, mas chegamos a um ponto em que também não podemos abrir mão das conquistas alcançadas no campo material.

Em relação a essa questão, o budismo expõe o conceito de Caminho do Meio, enfocado na seção Princípio do Mês (Veja na página 54 desta edição). Esse conceito se relaciona à postura de encarar a vida de forma equilibrada e autocontrolada, transcendendo o extremismo de visões opostas. Na matéria consta:

“As pessoas em geral tendem a uma visão predominantemente materialista ou então espiritualista da vida. Os efeitos negativos do materialismo que permeiam o mundo industrializado moderno são aparentes em cada nível da sociedade, da destruição ambiental ao empobrecimento espiritual. Não podemos simplesmente rejeitar o materialismo. Isso equivaleria ao idealismo ou ao escapismo e destruiria nossa capacidade de reagir aos desafios da vida de forma construtiva.”

O ser humano é formado tanto por seu aspecto físico como pelo mental, os quais devem se completar harmoniosamente. Vida e morte, material e espiritual, corpo e mente são conceitos indivisíveis e manifestações da vida como um todo.

Assim como ao caminharmos necessitamos movimentar as duas pernas de forma sincronizada, sem pender somente para um lado ou para o outro, o budismo busca a transcendência das diferenças para um bem comum maior.

No discurso realizado pelo presidente Ikeda em Harvard citado anteriormente, ele também afirma:

“Não poderíamos dizer que a civilização está agora procurando um terceiro caminho, um novo equilíbrio entre a fé em nosso poder e o reconhecimento do que está além de nós? Nitiren Daishonin descreve a profunda e extremamente sugestiva visão Mahayana sobre atingir a iluminação na seguinte passagem: ‘Nem somente por meio dos próprios esforços... nem somente por meio dos esforços dos outros.’ O argumento persuasivo do budismo é o de que o maior dos benefícios deriva-se da fusão dinâmica e do equilíbrio dessas duas forças.(...) “Como os resultados da autoveneração do homem moderno lamentavelmente mostram, sem auxílio somos incapazes de perceber nosso pleno potencial. É somente pela fusão de nós mesmos com o eterno — o qual está além de nossa transitoriedade como indivíduos — que podemos manifestar plenamente nosso potencial. E mesmo esse potencial não está fora de nós, mas está e sempre esteve em nós.” (BS, edição no 1.245, 9 de outubro de 1993, pág. 4.)

O termo “Terceira Civilização”, denominação dada a esta revista, surgiu do ideal do presidente Ikeda em construir uma nova era da humanidade baseada na integração harmoniosa do materialismo, representado pela civilização ocidental, e o espiritualismo, correspondente à civilização oriental.

Uma religião para o século XXI

A Soka Gakkai Internacional, organização budista leiga presente em 180 países e territórios do mundo, tem como ideal contribuir para a paz e prosperidade da humanidade fundamentada na filosofia de vida de Nitiren Daishonin. Sob a liderança do presidente Ikeda, sua forma de atuação busca atender às necessidades das pessoas do mundo atual.

Em uma pesquisa realizada por Karel Dobbelaere, professor de Sociologia e de Sociologia da Religião da Universidade Católica de Leuven, Bélgica, são citadas seis condições para uma religião no século XXI:

1. A religião deve estar sustentada num organismo cooperativo, revitalizando-o constantemente e criando a solidariedade entre as pessoas.

A reunião de palestra da Soka Gakkai é verdadeiramente uma instituição humana que incentiva, estimula e une as pessoas em direção ao objetivo comum chamado felicidade.

2. A religião deve oferecer vitalidade e força dinâmica para conduzir a vida diária.

O Daimoku, o Gongyo e as atividades da Soka Gakkai constituem uma grande fonte de vitalidade para todas as pessoas.

3. A religião não deve confinar-se ao âmbito individual. Pelo contrário, deve promover um enérgico movimento social.

As atividades da Soka Gakkai em prol do desenvolvimento da educação, da cultura e da paz são reconhecidas como um novo valor social em todo o mundo.

4. A religião deve conter o excesso de individualismo e enfatizar o senso de responsabilidade social.

A Soka Gakkai tem desempenhado um importante papel na conscientização das pessoas na missão de construir uma sociedade mais digna, mais justa e mais humana.

5. A religião deve manter a tolerância.

A ruptura da Soka Gakkai com o clero foi uma ruptura com a intolerância. Ser tolerante não é admitir e muito menos ser conivente com qualquer situação. É um ato de benevolência budista de salvar as pessoas refutando suas concepções distorcidas sobre a vida e ensinando a verdade.

6. A religião não deve preocupar-se exclusivamente com seu próprio desenvolvimento, mas criar um movimento de cooperativismo mundial.

A Soka Gakkai tem demonstrado resultados concretos na vanguarda do movimento em prol da paz, criando uma ação cooperativa de milhões de pessoas na promoção do bem-estar social.

Nessa mesma linha, o Dr. Bryan Wilson, sociólogo britânico especializado em religião, estudou o movimento da SGI sob uma ótica acadêmica, resumindo suas qualidades da seguinte forma:

1. É um movimento leigo formado por pessoas comuns.

2. É pragmático e centralizado nas questões práticas do dia-a-dia.

3. Apresenta conceitos multiformes de salvação.

4. É de “afirmação do mundo”, defendendo atitudes positivas na experiência social.

5. Enfatiza a religião como um instrumento de benefício, não como uma compensação para o sofrimento.

6. Exclui grande parte do aparato da organização clerical convencional.

7. Os grupos locais atuam como grupos de apoio para as pessoas.

8. É uma religião sociável, realizando uma ampla variedade de atividades sociais e culturais.

9. No que diz respeito a compartilhar sua filosofia, tem uma orientação ativista forte.

10. Sua ideologia como um todo legitima o bem-estar e não emprega sentimentos de culpa. (BS, edição no 1.429, 13 de setembro de 1997, pág. 4.)

Esses são comentários que atestam a preocupação constante da SGI em realizar a prática e a propagação do Budismo de Nitiren Daishonin de acordo com a época, o local e as necessidades das pessoas.

Visões extremistas mostram-se cada vez mais obsoletas. A conjunção de esforços com base no convívio construtivo e no respeito mútuo é o único caminho para resolvermos os graves problemas que defrontamos. Com o objetivo de criar uma cultura de paz baseada no respeito à vida, os membros da SGI têm se esforçado abnegadamente nesse sentido, a fim de que as diferenças entre as pessoas e os povos sejam suplantadas, respeitando-se as características de cada um e evidenciando seu máximo potencial em prol do futuro da humanidade.

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